quinta-feira, 18 de julho de 2019

os visionários do planeta xeiq

As ruas pareciam que se perdiam por entre os altos prédios da cidade de Vur, uma cidade que ficava para lá do mar verde escuro que cobria o planeta Xeiq.

Seres muito apressados percorriam os passeios, numa tal azáfama que era impossível perceber. Os carros circulavam em dois sentidos, sem pararem em sinais de trânsito, cada carro entrava na rua, depois saia, depois entrava outro, sucessivamente.

Erg nunca tinha ali estado, não conseguia perceber aqueles movimentos dinâmicos e mecânicos. Encostou-se a uma parede e deixou-se ali ficar por uns longos minutos, a observar.

Tinha chegado algumas horas antes no comboio rápido que fazia a ligação entre as cidades de Xeiq e estava a anos luz de se sentir bem e orientado naquela cidade nova.

Na verdade, não fosse a sua determinação em encontrar o guardador de livros mais antigo do planeta, já estaria arrependido de ali estar. A sua cidade, Lorq, era muito mais calma e ordenada.

No entanto, em Lorq tinha-se acabado com a profissão de guardador de livros. Com o desaparecimento do último, a cidade ficou orfã de quem a protegesse do esquecimento dos livros em papel.

Há muitos anos, nas Guerras Tecnológicas, em que o Ramo Digital tomou o poder, que já não se imprimiam livros em papel. Apenas um grupo de pessoas, chamados Os Visionários, insistiam em ler livros em papel. Como já não se faziam mais, os Visionários trocavam entre si os livros e (era apenas um rumor) havia quem estivesse a escrever livros novos. Chamavam-lhe os Marginais.

Entretanto, com o desaparecimento do último Guardador de Livros de Lorq, a Casa do Poder do Ramo Digital, apreendeu os livros e estes foram encarcerados nos túmulos esquecidos.

Ora, Erg queria ler. Queria continuar a ler os livros. Então, numa noite de grande silêncio, decidiu que iria até à cidade de Vur, onde se constava que vivia o mais antigo Guardador de Livros e que tinha uma infindável coleção de livros de todas as histórias. Dizia-se que até tinha sobre as Civilizações Perdidas e também de outros planetas.

Desde criança que Erg sonhava com conhecer a história dos outros planetas e, quando mais avançava na idade, maior era o sonho agora acompanhado de um plano.

Assim, meteu-se um comboio rápido e, cheio de nervos e entusiasmo, esperou que este chegasse a Vur.

Agora que ali estava apercebeu-se que não tinha delineado um plano completo e em condições pois agora não sabia o que fazer.

As cores, as luzes, os sons, as imagens que pareciam vir do nada, preenchiam as ruas.

Vur era o centro governamental do planeta, onde residia a sede do Ramo Digital e seu exército por isso a presença digital era muito profunda ali.

Não deixava de ser curioso ser ali que havia o maior grupo de Marginais e a maior coleção de livros de Xeiq.

Perdido nos seus pensamentos e nos seus medos, paralisado e sem ação, Erg estava a começar a entrar em pânico.

Nisto, ouviu uma voz vinda do escuro.
- Ei, tu, vem para aqui antes que te achem suspeito.

Instintivamente Erg deu um pulo e seguiu a voz que vinha de uma lateral da rua onde se encontrava.

Aproximou-se do escuro e um rosto surgiu-lhe. Era uma rapariga muito morena, com um capuz na cabeça e envergando vestes com cores castanhas. Nas mangas largas, os símbolos de Vur.

Em Xeiq, os cidadãos usavam os símbolos das suas cidades nas mangas das roupas, não era permitido numa cidade usar os símbolos de outra.

Nas centrais dos comboios existem avisos por todo o lado “Troque os seus símbolos. Está em Vur. Use o hexágono verde. Bem vindo a Vur, cidadão de Xeiq.”

Erg esqueceu-se por completo de ir ao registo dar conta da sua presença ali e pedir para lhe mudarem, por via da tecnologia, os símbolos de Lorq que usava nas suas mangas.

Ficou ainda mais em pânico.

- Não costumas viajar muito, pois não? Metes-te num sarilho ao não ires ao registo dos símbolos. – depois de uma pausa, a rapariga tirou um casaco da sua mochila e entregou a Erg. – Toma, veste. Assim não te vão mandar parar e levarem-te para a detenção e averiguação.

Sem questionar, Erg vestiu imediatamente o casaco.

- Obrigado. – disse ele, visivelmente agradecido.
- Então, que fazes aqui? O que vens à procura? – perguntou a rapariga apesar de que a Erg lhe pareceu que ela desconfiava dele.
- Acabaram-se os livros na minha cidade, Lorq. Ficámos sem o nosso último Guardador de Livros – e baixou a cabeça tristemente – e os livros foram apreendidos. Mas eu quero continuar a ler! – e levantou a cabeça, determinado.

A rapariga sorriu e estendeu-lhe a mão.

- Anda. Vem comigo conhecer o nosso Clube dos Marginais de Vur. Temos muitos livros para leres. E mais ainda.

Os olhos de Erg brilharam.

- Vocês andam a escrever livros novos?! E o vosso Guardador tem livros sobre os outros planetas? – a sua voz não conseguia conter o seu entusiasmo.

A rapariga riu-se.

- Sim. Somos loucos. Mas estamos apaixonados pelo universo e por encontrar outros como nós noutros planetas.

E fez uma pausa.

- Descobrimos um noutra galáxia, distante. Um planeta azul.
- E…? – Erg pulava de alegria.
- Enviámos uma mensagem. Mas não sabemos se eles perceberam e se vão responder.

Erg estava eufórico com as palavras da sua nova amiga. Já nem se lembrava dos seus medos e do pânico que ainda há pouco sentia.

- Temos de ir. A qualquer momento podemos ter uma mensagem do planeta Azul.

Erg e a sua amiga desapareceram pela rua escura e silenciosa. Os seus corações imaginavam grandes conversas com os habitantes deste planeta azul, fossem eles como fossem. Mas não podiam falar disto aos outros habitantes de Vur. Ninguém acreditava que outro planeta tivesse vida inteligente como em Xeiq e essa loucura já tinha custado a muitos Visionários o desaparecimento da sociedade.


P.C. Franco

all rights reserved | reservados os direitos de autor 


infinite


segunda-feira, 3 de junho de 2019

a viagem visionária do jovem álfar

Capítulo I

As árvores altas que rodeavam a aldeia protegiam de certo modo os seus habitantes do mundo cruel que havia lá fora.
A Guerra durava há vários meses e apenas sabiam disto. O mensageiro trouxera as tristes novidades numa manhã cinzenta em que o sol não tinha aparecido.
O jovem álfar tinha acabado de acordar e preparava-se para a sua aula de artes e rituais ancestrais quando todos os habitantes foram chamados ao largo principal para ouvir o álfar líder falar a todos.
Aquilo apanhou-o de surpresa pois tudo à sua volta parecia-lhe em perfeita harmonia e paz: a Natureza estava perfeita, os seus familiares e amigos com ar sereno e calmo, os animais continuavam as suas rotinas.
Como poderia o mundo estar a arder em chamas e a caminhar para a destruição quando tudo parecia em paz?
O jovem acabou por perceber que era apenas tudo aparentemente e que a sua aldeia não era o mundo e descobrir que o mundo não cabia na sua aldeia despertou nele um sentimento novo.
De repente os seus olhos brilhavam e a sua mente viajava à velocidade da luz.
O que haveria para além das árvores?
O infinito, meu jovem, o infinito! Ouvia ele dentro de si.
E correu para casa, tão depressa quanto as pernas lhe permitam.

Capítulo II

O jovem álfar equipou-se com aquilo que achou que lhe seria útil no mundo para lá das árvores, enquanto imaginava o mundo.
Na mente dele a palavra “Guerra” nem ganhava espaço, apenas pensava que haveria outras aldeias, outros seres lá for a e ele queria ir conhecê-los.
Ninguém o compreendeu e ele foi chamado à presença do álfar líder.
Compareceu cheio de medo, via-se no seu rosto e por momentos pensou que o seu sonho tinha ido longe demais. Não tinha pensado nos outros e muito menos que não iam compreender a sua decisão.
Mas o líder não o proibiu de partir. Também não o incentivou. Olhou para ele durante segundos que lhe pareceram eternos e disse que ele ia descobrir que o mundo era cruel e não o poderia proteger longe dali.
O jovem compreendeu e partiu.
Um sentimento misto invadiu-lhe a mente: sentia que tinha de ir, e sentia um mau pressentimento quanto ao que ia encontrar.
Depois vou voltar e contar o que vi!, pensava ele.
Depois de passar as árvores o mundo mudou radicalmente. As pessoas que encontrava não lhe falavam, nunca mais viu o sol e havia muito barulho, ruídos que ele não conhecia e vozes muito aflitas.
Houve momentos em que teve muitas dúvidas sobre se tinha feito bem. No entanto, depressa percebeu que mais tarde ou mais cedo a Guerra iria chegar à sua aldeia, era inevitável. E, por isso, devia avisar os seus familiares e amigos do que aí vinha para se defenderem. Afinal, ou se está no mundo ou não se está. Não é possível estar e não fazer parte dos eventos que o assolavam: e foi a primeira vez que o jovem álfar teve a visão do todo.
O mundo é um todo. Todos somos um povo. O povo do mundo., pensava o jovem.
O seu coração chorava perante as atrocidades que se tinham espalhado por todos os lugares e chorava a falta do sol e dos animais.
Teria o Vanir abandonado o que se passava na terra dos Homens e dos seres mágicos?
Teriam os Homens sido entregues ao seu destino e a Guerra iria também chegar aos seres mágicos, envolvendo, assim, todos no mesmo ragnarok?
De repente, a sua visão de todo um só planeta a sofrer em conjunto encheu-o de uma vontade que nunca antes sentira de lutar contra o fim da crueldade.
Correu de regresso, o mais depressa que lhe foi possível, para a sua aldeia.
No entanto, os álfars não estavam convictos de que a Guerra iria chegar ali e que eram assuntos dos Homens nos quais os seres mágicos não se intrometiam.
Não foi começada por nós, não é entre nós, não temos parte no assunto, responderam-lhe.
O jovem foi mandado para sua casa descansar e recuperar das ideias de Humanidade que lhe tinham invadido a mente.
Assim fez, desiludido com o seu povo.


Capítulo III

O dia seguinte amanheceu cheio de sol e um ambiente calmo, como era normal na aldeia.
Quando o jovem álfar saiu de casa encontrou vários jovens em frente que o rodearam.
Queremos ir, disseram eles.
I ronde?, perguntou o jovem.
Mudar o mundo, acabar com a Guerra, ajudar os Homens., responderam eles.

E, assim, uma nova era começou. A era da Humanidade Alfa. 

P.C. Franco 


The powers of creation by Louis Dyer
http://louisdyer.com/ 

segunda-feira, 29 de abril de 2019

o caminho para Júpiter

Houve um dia em que numa manhã o frio apareceu de repente e uma fina geada cobriu a relva e as flores.

Os corações nesse dia perderam-se em gritos, sufocaram-se em lágrimas, impregnadas de dor e remorsos.

O arrependimento seria agora companheiro dos dias e noites porque tudo ficou por fazer, por dizer.

Ela não quis ouvir as palavras do sábio que a visitou nessa noite mais escura da sua vida. Agora, perguntava-lhe.

Ia partir e queria um último conselho. Não sabia o que responder à primeira pergunta que lhe iam fazer.

Talvez não quisesse era responder o que deveria.

Queria algo que fosse o mais certo e não o que fosse verdadeiro. E nem sempre o que é o mais certo é a verdade. Provavelmente, o mais certo é mesmo o que não é verdadeiro.

A Humanidade está preparada para lidar com o que é correto, mas não com a verdade.

E, tal como a Humanidade, ela estava assustada com essa possibilidade. Desejou ter dado ouvidos ao homem sábio. Agora, tinha a convicção de que ele não a iria reconhecer. No fim, estarás só, avisaram-na. Os olhos fecharam-se e a escuridão tornou-se rainha.

“Sou filha da tempestade, pensou ela, a “tormenta não me assusta”, e assim caminhou pelo negro da eterna noite.

De repente, um batimento de coração mais forte e os olhos abriram.

Tinha acordado do sonho.



P.C. Franco

texto retirado da história O manipulador dos Deuses e de todas as criaturas.
reservados os direitos de autor | all rights reserved


In space by Valera Taljutov