segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

os nove dragões ergueram-se

Aquilo que avistámos ao longe naquele dia não era mais do que uma colina de fumo que não deixava ver a montanha.
Sobrevoámos os céus durante dias sem fim, procurámos os rios, os mares, as florestas, mas só encontrámos os lamentos dos homens e das mulheres abandonados pelos Deuses.
O silêncio ecoava por uma Terra envolta num nevoeiro aterrorizador e os animais estavam escondidos.
A Terra estava sozinha na batalha pelo seu lugar no Universo.
Pacha Mama chorava e entoava uma bela canção de despedida.
O Sonho outrora criado pelo Sol e pela Lua de um paraíso para o Homem amar e habitar estava agora esvanecido. Os mortais ousaram desafiar aquilo que não lhes pertencia.
E os Deuses fizeram os nove dragões saírem do coração da Terra, onde dormiam o sono longo dos mil anos, e eles sobrevoaram os céus que não mais pertenciam aos mortais humanos.
Os Deuses devolveram às Quatro Dignidades o domínio da terra, do ar, da água e do fogo na esperança do Renascimento de Pacha Mama.
Tal como os Homens, também os Deuses vivem de arrependimento e esperança.

P.C. Franco 


The Triumph of Galatea by Raphael 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

textos ao amanhecer #5

Somos e existimos para além do tempo e do espaço que vemos com os nossos olhos.
Descendentes de antepassados, temos tendência para esquecer ou arquivar num dos cantos da nossa memória as nossas raízes e heranças de outros e, queremos com toda a força, construir um novo eu, como se viéssemos do zero.
É uma bela tentativa de nos afirmarmos na sociedade complexa que habitamos, conquistar um espaço só nosso, que nada tenha a haver com os antepassados que vieram antes de nós.
A nossa ignorância leva-nos a atuar assim.
Na verdade, devíamos saber bem que não seriamos o que somos hoje sem essa evolução de geração em geração; somos o resultado da evolução através dos tempos de uma família que se foi construindo através do tempo e do espaço.
Para o bem e para o mal, carregamos no ADN a história, a memória, a vivência, os traços físicos, a saúde, a doença, os sonhos, os medos, os demónios de todos os que nos antecederam.
Todos esses sonhos e monstros culminaram naquilo que somos hoje.
E devemos ser orgulhosos disso. E não tentar apagar e construir um novo eu, à nossa maneira, como se fossemos uma novidade.
Não somos. Não somos novidade no turbilhão do universo. Somos uma evolução de outras evoluções antes de nós. E daremos lugar a próximas evoluções que se querem melhor que nós.
E ainda bem que carregamos os sonhos e monstros dos nossos antepassados nos genes e os iremos passar a outros. Eles fizeram de nós aquilo que somos hoje.
A única variante que o cosmos nos permite é aquela que Elvis Presley e Frank Sinatra cantavam e imortalizaram, vivermos à nossa maneira.
E a maior parte das pessoas vive de acordo com a sociedade e não à sua maneira, desperdiçando assim a única coisa que podemos efetivamente controlar neste infindável ciclo de vidas que nascem e morrem, que dão origem a outras que darão origem a outras.

P.C. Franco

São Sebastião, circa 1482, Leonardo Da Vinci


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

textos ao amanhecer #4

Naquela noite um som vindo do interior da Terra ecoou pelas ruas, vielas e becos da cidade do Povo da Floresta.
Nunca tinham ouvido um ribombar daqueles, nem nos dias de maior tempestade em que o Deus do Trovão visitava os mortais para lhes lembrar da casa dos deuses lá em cima, entre as estrelas.
As portas e as janelas foram trancadas e as luzes apagadas, e um silêncio nunca antes visto instalou-se noite fora.
O Povo da Floresta aguardava que algo chegasse, acontecesse, se revelasse pois era certamente um evento que se iria suceder.
No entanto, as horas passaram, a Lua iluminou a cidade durante as horas de escuridão e, depois muito pacificamente, desapareceu dando lugar a raios de sol majestosos e quentes. 
Não fazia sentido, então nada acontecera debaixo dos seus pés? Teriam imaginado o som monstruoso que ouviram? Na verdade, o Povo da Floresta era um bom povo imaginativo, eram conhecidos por contarem histórias mágicas de seres, aventuras, lugares e canções que não existiam em mais lado nenhum a não ser nas suas histórias. Teriam todos sonhados com aquele som?
Aos poucos a cidade voltou ao normal, sendo que os habitantes caminhavam com algum cuidado pelas ruas, vielas e becos. Cada passo que davam era com profundo respeito pelo que poderia vir do interior da Terra.
Desde essa noite que deixaram de somente olhar para o céu e orar para os deuses que habitam as estrelas; passaram a fazer preces pelos seres e criaturas que poderiam estar ali mesmo, debaixo dos seus pés, fazendo as plantas e as árvores crescerem, as águas nascerem e darem origem a rios e mares, e, sobretudo, a receberem os corpos dos mortais que à Terra retomavam.
Todos os meses passaram a juntarem-se na Casa da Sabedoria para contarem novas histórias, desta vez, sobre a Magia que vinha do chão e para orarem que a terra fosse amada desde o seu interior até ao céu que se deixava de ver.
Nunca mais ouviram tal som a meio da noite, e não mais faltou água na Nascente Dourada nem a floresta teve incêndios ou pragas, e animais e plantas nasciam e floresciam de uma beleza nunca antes vista.
Rapidamente esta história do Povo da Floresta se espalhou pelo País dos Navegantes e por todos os outros países, os conhecidos e os não conhecidos.
Só que desta vez a história era verdadeira.

P.C. Franco

retirado da história "Stjerner - O Povo das Estrelas", ainda a ser escrita 
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Baldassare Tommaso Peruzzi draw at the Metropolitan Museum for public domain