quinta-feira, 7 de março de 2019

textos ao amanhecer #6

Nos tempos atuais a Humanidade volta-se para a Natureza e para o Reino Animal, fazendo despertar por todo o mundo, de modo coletivo, institucional, governamental, social, pessoal, para o voto de não violência ahimsa de outrora do jainismo e que o hinduísmo e o budismo também adotaram.
Falamos, debatemos, pensamos como e o que fazer para não agredir a Natureza e os seres vivos com os quais partilhamos o Planeta.
Por vezes, fazemos e atuamos como se fosse uma novidade do homem sábio do século XXI.
Não podíamos estar mais equivocados.
Já os Upanixades abordavam este estilo de vida que levava muitos milhões de indianos a dedicarem  a vida a serem vegetarianos, de modo a não agredirem nenhum ser vivo.
Se analisarmos o jainismo, descobrimos que a defesa do bem-estar animal, a não violência, a tolerância religiosa e o respeito pela Natureza são os pilares da filosofia jainista.
O ego do Homem do séc. XXI leva-o a invocar ideais e estilos de vida que não são originários do mundo atual que o rodeia. Se para uns está na génese desta visão e comportamento a essência viver em sintonia com o meio ambiente, para outros é puramente uma obsessão pela longevidade e qualidade de vida. Seja como for, obsessões e extremismos não são benéficos, sejam quais forem os motivos que nos influenciam.
Assim, o Homem sábio dos tempos modernos foi procurar a sabedoria de civilizações que há milhares de anos nos deram verdadeiros fundamentos humanos pelos quais nos devemos guiar.
Como diria há 1800 anos o monge Umaswati, toda a vida, tanto humana como não humana, é sagrada.
Nunca é demais relembrar os editais de Ashoka, dos quais encontramos hoje equivalentes nas nossas leis e na estrutura da sociedade moderna e avançada (e bem, verdade seja dita):
"Tomei providências para dois tipos de tratamento médico. Uma para os humanos e outra para os animais. Onde não existam ervas adequadas aos cuidados de humanos e animais, mandei-as importar e cultivar... Mandei abrir poços e plantar árvores ao longo das estradas para o bem dos humanos e dos animais." (Edital da Rocha nº2).
O Homem ocidental do séc. XXI encarna a sabedoria milenar dos Homens sagrados da Mãe Índia. 
P.C. Franco

Sufi Saint Pacifying the Animals; c. 18th century Persian miniature courtesy dharmadeen.com

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

os nove dragões ergueram-se

Aquilo que avistámos ao longe naquele dia não era mais do que uma colina de fumo que não deixava ver a montanha.
Sobrevoámos os céus durante dias sem fim, procurámos os rios, os mares, as florestas, mas só encontrámos os lamentos dos homens e das mulheres abandonados pelos Deuses.
O silêncio ecoava por uma Terra envolta num nevoeiro aterrorizador e os animais estavam escondidos.
A Terra estava sozinha na batalha pelo seu lugar no Universo.
Pacha Mama chorava e entoava uma bela canção de despedida.
O Sonho outrora criado pelo Sol e pela Lua de um paraíso para o Homem amar e habitar estava agora esvanecido. Os mortais ousaram desafiar aquilo que não lhes pertencia.
E os Deuses fizeram os nove dragões saírem do coração da Terra, onde dormiam o sono longo dos mil anos, e eles sobrevoaram os céus que não mais pertenciam aos mortais humanos.
Os Deuses devolveram às Quatro Dignidades o domínio da terra, do ar, da água e do fogo na esperança do Renascimento de Pacha Mama.
Tal como os Homens, também os Deuses vivem de arrependimento e esperança.

P.C. Franco 


The Triumph of Galatea by Raphael