segunda-feira, 3 de junho de 2019

a viagem visionária do jovem álfar

Capítulo I

As árvores altas que rodeavam a aldeia protegiam de certo modo os seus habitantes do mundo cruel que havia lá fora.
A Guerra durava há vários meses e apenas sabiam disto. O mensageiro trouxera as tristes novidades numa manhã cinzenta em que o sol não tinha aparecido.
O jovem álfar tinha acabado de acordar e preparava-se para a sua aula de artes e rituais ancestrais quando todos os habitantes foram chamados ao largo principal para ouvir o álfar líder falar a todos.
Aquilo apanhou-o de surpresa pois tudo à sua volta parecia-lhe em perfeita harmonia e paz: a Natureza estava perfeita, os seus familiares e amigos com ar sereno e calmo, os animais continuavam as suas rotinas.
Como poderia o mundo estar a arder em chamas e a caminhar para a destruição quando tudo parecia em paz?
O jovem acabou por perceber que era apenas tudo aparentemente e que a sua aldeia não era o mundo e descobrir que o mundo não cabia na sua aldeia despertou nele um sentimento novo.
De repente os seus olhos brilhavam e a sua mente viajava à velocidade da luz.
O que haveria para além das árvores?
O infinito, meu jovem, o infinito! Ouvia ele dentro de si.
E correu para casa, tão depressa quanto as pernas lhe permitam.

Capítulo II

O jovem álfar equipou-se com aquilo que achou que lhe seria útil no mundo para lá das árvores, enquanto imaginava o mundo.
Na mente dele a palavra “Guerra” nem ganhava espaço, apenas pensava que haveria outras aldeias, outros seres lá for a e ele queria ir conhecê-los.
Ninguém o compreendeu e ele foi chamado à presença do álfar líder.
Compareceu cheio de medo, via-se no seu rosto e por momentos pensou que o seu sonho tinha ido longe demais. Não tinha pensado nos outros e muito menos que não iam compreender a sua decisão.
Mas o líder não o proibiu de partir. Também não o incentivou. Olhou para ele durante segundos que lhe pareceram eternos e disse que ele ia descobrir que o mundo era cruel e não o poderia proteger longe dali.
O jovem compreendeu e partiu.
Um sentimento misto invadiu-lhe a mente: sentia que tinha de ir, e sentia um mau pressentimento quanto ao que ia encontrar.
Depois vou voltar e contar o que vi!, pensava ele.
Depois de passar as árvores o mundo mudou radicalmente. As pessoas que encontrava não lhe falavam, nunca mais viu o sol e havia muito barulho, ruídos que ele não conhecia e vozes muito aflitas.
Houve momentos em que teve muitas dúvidas sobre se tinha feito bem. No entanto, depressa percebeu que mais tarde ou mais cedo a Guerra iria chegar à sua aldeia, era inevitável. E, por isso, devia avisar os seus familiares e amigos do que aí vinha para se defenderem. Afinal, ou se está no mundo ou não se está. Não é possível estar e não fazer parte dos eventos que o assolavam: e foi a primeira vez que o jovem álfar teve a visão do todo.
O mundo é um todo. Todos somos um povo. O povo do mundo., pensava o jovem.
O seu coração chorava perante as atrocidades que se tinham espalhado por todos os lugares e chorava a falta do sol e dos animais.
Teria o Vanir abandonado o que se passava na terra dos Homens e dos seres mágicos?
Teriam os Homens sido entregues ao seu destino e a Guerra iria também chegar aos seres mágicos, envolvendo, assim, todos no mesmo ragnarok?
De repente, a sua visão de todo um só planeta a sofrer em conjunto encheu-o de uma vontade que nunca antes sentira de lutar contra o fim da crueldade.
Correu de regresso, o mais depressa que lhe foi possível, para a sua aldeia.
No entanto, os álfars não estavam convictos de que a Guerra iria chegar ali e que eram assuntos dos Homens nos quais os seres mágicos não se intrometiam.
Não foi começada por nós, não é entre nós, não temos parte no assunto, responderam-lhe.
O jovem foi mandado para sua casa descansar e recuperar das ideias de Humanidade que lhe tinham invadido a mente.
Assim fez, desiludido com o seu povo.


Capítulo III

O dia seguinte amanheceu cheio de sol e um ambiente calmo, como era normal na aldeia.
Quando o jovem álfar saiu de casa encontrou vários jovens em frente que o rodearam.
Queremos ir, disseram eles.
I ronde?, perguntou o jovem.
Mudar o mundo, acabar com a Guerra, ajudar os Homens., responderam eles.

E, assim, uma nova era começou. A era da Humanidade Alfa. 

P.C. Franco 


The powers of creation by Louis Dyer
http://louisdyer.com/ 

segunda-feira, 29 de abril de 2019

o caminho para Júpiter

Houve um dia em que numa manhã o frio apareceu de repente e uma fina geada cobriu a relva e as flores.

Os corações nesse dia perderam-se em gritos, sufocaram-se em lágrimas, impregnadas de dor e remorsos.

O arrependimento seria agora companheiro dos dias e noites porque tudo ficou por fazer, por dizer.

Ela não quis ouvir as palavras do sábio que a visitou nessa noite mais escura da sua vida. Agora, perguntava-lhe.

Ia partir e queria um último conselho. Não sabia o que responder à primeira pergunta que lhe iam fazer.

Talvez não quisesse era responder o que deveria.

Queria algo que fosse o mais certo e não o que fosse verdadeiro. E nem sempre o que é o mais certo é a verdade. Provavelmente, o mais certo é mesmo o que não é verdadeiro.

A Humanidade está preparada para lidar com o que é correto, mas não com a verdade.

E, tal como a Humanidade, ela estava assustada com essa possibilidade. Desejou ter dado ouvidos ao homem sábio. Agora, tinha a convicção de que ele não a iria reconhecer. No fim, estarás só, avisaram-na. Os olhos fecharam-se e a escuridão tornou-se rainha.

“Sou filha da tempestade, pensou ela, a “tormenta não me assusta”, e assim caminhou pelo negro da eterna noite.

De repente, um batimento de coração mais forte e os olhos abriram.

Tinha acordado do sonho.



P.C. Franco

texto retirado da história O manipulador dos Deuses e de todas as criaturas.
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